quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Cartas de amor para um desconhecido


Quando eu me declarava romântica, era normal fazer várias cartinhas de amor para o namoradinho do colégio. Era normal escrever o nome da pessoa no caderno rodeados de corações. Era lindo receber uma declaração em público, mesmo que aquilo me aniquilasse de vergonha. Era fácil entender um amor platônico e era aceitável desejá-lo. Era precioso o tempo da intensidade que vivia... podia ser um mês, uma semana, um dia, um minuto. Aquilo tudo era o que preenchia meu coração de esperança de um amor.
Hoje escrever cartas é ultrapassado. É brega. E o ego e a vergonha do sofrimento me cobriu tanto que demonstrações de amor me dão ânsia de vômito. Não tenho paciência. E o niilismo falso impregnado pela minha razão está fora do controle. Ele me corrói tanto quanto a tragada do cigarro que me mata a cada dia. Destrói a minha esperança, o meu amor próprio. 

- Mas óh desconhecido... quando apareceras para me dizer que estou errada?

O que mudou?! Além do medo do desconhecido e do tão próximo medo de amar?! Talvez a dor me ensinou a ser uma péssima companhia. É tão ruim sentir aquela dor de todas as expectativas indo para o ralo. Aquela dor de planos, histórias futuras, estórias vividas se despedindo como um supro em pó. Tão fácil como veio, foi mais difícil de ir. Mais difícil de esperar o próximo e entender que cada romance é um ar diferente.


- Me devolva, meu desconhecido, o amor, o ar da vida. 

Não sei se foi o acomodo e o apreço pela dor que me manteve apática e cética. Talvez isso tudo seja uma máscara protetora que uso para não sentir de novo a dor de mais um amor perdido. Mais uma carta de amor feita a qualquer desconhecido.

- Te escrevo para aparecer logo. Encha novamente minhas esperanças e tenha calma. Meu coração te esperou, mas minha cabeça vai te negar. Pois a mente sempre nega, o coração jamais.

Era normal, sonhar, acordar e pensar na pessoa como que sua vida dependesse daquilo. Era sensacional ver as mensagens de texto e chorar de tanto emoção por um amor correspondido. Ahhhh... e como isso dói. Ver que esses pequenos detalhes não existem mais. E que a dor me domina a cada novo relacionamento e a vontade de fazer cartas nunca mais existiu. De declarar amores sem vergonha e de ter a sensação de que posso ter um momento de paz independente dos que os outros possam achar... Se acham que é brega ou se é infantil.

- Mas quero te escrever cartas. Escrever durante a vida toda. 

Hoje eu escrevo cartas de amor para um desconhecido. Como fazia antes. Uma forma de amar uma esperança, talvez, que eu queira ter. Faço as cartas para não desistir. Não desistir de uma coisa que possa me dar pés nos chão e cabeça nas nuvens. Escrevo-as para que tenha um amor próximo de mim e idealizo a vida de uma maneira tranquila, sem doença, sem estresse... aquele amor que acalma, que inspira.

- A vida pode até nos testar, mas que sejamos fortes para continuar.

Escrevo cartas para que alguém que quando chegue, chegue de mansinho e não me corrompa. Que me ensine, que me faça crescer. Que me acompanhe nas infantilidades, mas que saiba me manter sã e coerente. Que traga luz a todo meu caminho que anda pessimista, mas que ainda não desiste.
Que não encontre palavras para descrever o que sente, mas que tente o máximo a cada aniversário. Que me iluda com maneiras mais belas que o amor pode causar. Que não seja opaco, que dure o suficiente para novas lembranças. Aquelas que ficam.

- E que cada beijo seja como uma declaração de amor eterna. 

Hoje escrevo cartas a um desconhecido. Escrevo para que a esperança de acreditar no amor volte. Escrevo para entender que um dia isso foi tão real quanto aquela dor destruidora que agora está indo embora. Escrevo para que me lembre a esquecer os medos quando esse novo aparecer. Escrevo para não perder a prática do romance, que hoje por mais piegas que possa ser, é o mais belo presente que a vida pode te dar. Escrevo para você desconhecido... para que eu possa me permitir a te conhecer.


3 comentários:

  1. Obrigado pela excelente leitura proporcionada!

    Uma proteção contra desilusão é algo que eu não entendo muito, acho válido, mas não entendo, eu mesmo tenho chifres que me doem até hoje, tenho cartas e sempre que entro em algum relacionamento, quero sim tudo isso, o problema é que hoje em dia as pessoas não se dão uma chance. Eu já vi várias vezes pessoas que acabam aparecendo em videos onde a resposta final é NÃO e isso é algo que intimida uma pessoa a ter certas atitudes como por exemplo escrever uma carta, a falta de respeito pelo amor, nos instrui a desconfiar dele e isso é ruim, afinal você começa a pesar as coisas, quando será que o relacionamento vale uma carta, uma declaração?
    Assim esperamos provas de amor e a pessoa do outro lado também, eu não tenho problemas em escrever uma carta ou algo do gênero, mas já ouvi que isso era besteira, o lance é não achar que alguém é capaz de te desmotivar em relação à isso. =]

    Obrigado mais uma vez pela leitura =]

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    1. O sofrimento desmotiva o amor e a esperança. Quando se sofre demais e se cria muitas expectativas, tudo que segue acaba se tornando uma reprise das velhas decepções. Mas acreditar e ter esperança para tentar de novo que é uma atitude corajosa. Afinal, se lamentar e chorar porque deu errado de nada adianta... de fato atrapalha ainda mais.

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