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Capítulo 23: A descida ao paraíso distorcido com fritas

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A noite era mais escura do que o normal, ou talvez fosse eu que estava começando a enxergar a vida assim — uma mistura de sombras e silêncios que se entrelaçavam, sem deixar muito espaço para a luz. Estava exausta, cansada de tudo. O trabalho, a família, os relacionamentos que se esfarelavam, como com o  Judas (porque não havia nome mais apropriado para aquele traidor). Meus olhos se fixaram no copo à minha frente, um convite para o abismo, e eu aceitei. Enchi meu corpo com tudo o que pudesse entorpecer os pensamentos: papel, majis, álcool, cigarro. Era como se eu quisesse apagar não só a dor, mas qualquer vestígio de mim mesma. O reggae soava distante, como se estivesse tocando para outra pessoa, em outro lugar. Eu comi muito pouco naquele dia, o que fez com que a mistura ficasse ainda mais potente, mais rápida. Meu corpo começou a ceder, e antes que eu pudesse perceber, fui ao banheiro do bar, tropeçando nas sombras que se formavam em minha mente. Agarrei a privada como se fosse...

Não há tempo

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Estou esgotada do tempo. Do tempo que me leva, que não traz e que não aparece. Do momento não tido, da vida passada, do tempo não reparado. Da vida tão sem tempo. Dos horários marcados, da digital registrada, do banco de horas, da vida passada. Existe banco de horas para a vida? Existe banco de horas para viver? Quantas horas sobra para eu me ter? Estou apavorada com o tempo. De tudo que passou, das coisas que não vieram, das coisas que vieram até demais, do tempo corrente, das mudanças do tempo. Da vida sem tempo. Do tempo todo estar com mais medo. Do tempo todo exigir cada vez mais de mim e pouco do meu ser. Estou assustada com este novo tempo. Com pessoas preocupadas com tempo e eu contando o tempo. A vida depositada em 24 horas para durar. Em semanas para aproveitar, em meses para descansar e anos para sonhar. Não há tempo! Não há horas para durar, nem semanas para aproveitar, muito menos meses para descansar e anos para sonhar. A vida é um susto. O tempo é amargo. Não há tempo...