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Ainda há algo mais

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Sob a pele frágil de uma infância perdida, há feridas tão profundas que nem os olhos podem ver. Um eco de gritos e tapas ressoa nos corredores escuros do tempo, enquanto vidas escorrem como areia, escavadas pela negligência de mãos que deveriam ter sido ternas. É uma dança cruel, onde o amor deveria ser maestro, mas a melodia foi distorcida por notas de descuido. Queria poder tocar essas feridas e transformá-las em cicatrizes invisíveis, tanto nas crianças de ontem quanto na criança que ainda pulsa em mim. Carregamos nossas dores como pedras em um poço sem fundo, empilhando-as até que se tornem parte de quem somos. Crescemos, então, sob o peso delas, arquitetando ilusões de controle, acreditando em promessas de um amanhã mais brando. Mas, no fundo, somos alquimistas sombrios, destilando nossos próprios venenos, fabricando cenários que nos consomem pouco a pouco. A autoestima, nunca plantada no solo fértil da infância, é moldada pelo fogo do instinto de sobrevivência. Vestimos armaduras...

Capítulo 55: Renascimento no Caos

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No que me transformei? O que escolhi? Escolhi não ver, escolhi me esconder. Me esconder de mim mesma, fingir saber, fingir que não tinha condições suficientes. Me importar além do que deveria com coisas que não mereciam tanta atenção e ver a realidade dolorosa de uma criança gritando em pânico, de uma adolescente apavorada com o futuro, e de uma adulta cheia de certezas e soberba. Segurando tudo sozinha, porque algumas dores simplesmente não têm explicação. E, mesmo que eu, como escritora, pudesse sintetizar os movimentos da consciência, falar sobre os sentimentos sempre foi algo mais complexo. O grande Saturno retornou à minha vida agora. Sem dó, sem piedade. E me trouxe as consequências de todas as minhas ações: a falta de responsabilidade, de compromisso comigo mesma, a falta de sabedoria para lidar com a dor. Convivi tanto com ela que se tornou minha amiga, minha parceira. Encontrei um jeito fascinante de justificá-la, de torná-la a dominadora das minhas atitudes e ações. Dei a ela...

Capítulo 1: Quando as estrelas apagaram

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Naquele dia, as estrelas pareciam ter se apagado antes do entardecer. Fomos para a festa na empresa do meu pai, um evento que deveria ser uma celebração, mas para mim, parecia o prelúdio de uma tempestade que eu já pressentia. Desde que me entendia por gente, sempre fui sensível às dores ao meu redor, e naquele momento, a dor de minha mãe era palpável, como uma sombra densa, pairando sobre nós. Meu pai, imerso no álcool e no ciúme, tentava preencher seu vazio flertando com outras mulheres à vista dela, enquanto eu fingia não ver. Mas, por dentro, algo em mim já sabia — aquilo era apenas o começo. Eu, com meu semblante abatido, sentia que algo estava para acontecer. A antecipação do desastre me envolvia, como um presságio silencioso, sem forma, mas inevitável. E então, quando a noite avançou, os sussurros das brigas ecoaram pelos corredores da casa. No banheiro, meu pai e minha mãe se enfrentaram como dois titãs arrastados por uma força destrutiva. Medo. O medo que senti naquela madruga...

Menina

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Aquela menina... Que tanta acreditava que a vida poderia ser um incrível contos de fadas, viu que muitas vezes deixou de ser princesa e virou a bruxa. Aquela menina... De tanto observar, reparou que o mundo tinha uma coisa cruel incontrolável no coração do homem que não sabia entender. Mas teve que viver a experiência para sentir na pele o quanto horrível pode ser. Aquela menina... Com sonhos, desenhos e fantasias exuberantes, sentiu a dor de uma vida levada em busca de coisas solúveis. Sentiu a dor da derrota mascarada de busca conduzida. Sentiu que os caminhos deveriam ser traçados sós e por pura determinação de escolha própria. Aquela menina... Se fez crescer antes do que deveria, como muitas que assim também o fazem, por sentir toda a toxidade de viver num mundo coberto de mentiras e falsidades. Aquela menina... Nunca de fato desistiu de ser uma menina. Uma criança que se joga no novo, que experimenta, que determina e que não tem medo. De fato, nunca desistiu de sonhar, a...