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Vida no sono

Sinto o cheiro da minha gata. Inacreditavelmente, ela nunca tomou um banho — a não ser ao se lamber durante um longo tempo — e, mesmo assim, é extremamente cheirosa. Com minha respiração profunda, buscando o alicerce do sono, sinto as molas da cama assoviarem a cada movimento da minha barriga. Morgana estava ronronando, o que sempre me desperta para um som tranquilizante e meditativo. Percebo meus olhos, minhas mãos, e sinto a vida surgindo dentro de mim como um sentimento. Não tem uma voz, não tem um escutar — é apenas um sentir. Volto a perceber a posição da minha cabeça no travesseiro, com meu novo corte de cabelo. O bebedouro da gata fazia um barulho de água caindo. Apareceu um vizinho ouvindo música em seu velho radinho. Se me atentar à escuta ativa, consigo ouvir os carros na estrada. Consigo até chutar a sua velocidade. A cidade anoitece e vive, de certa forma. E o silêncio me encontra. Há quanto tempo fico sem me manter em silêncio? Desde quando as vozes da minha cabeça deci...