Postagens

Mostrando postagens com o rótulo consciência

Vida no sono

Sinto o cheiro da minha gata. Inacreditavelmente, ela nunca tomou um banho — a não ser ao se lamber durante um longo tempo — e, mesmo assim, é extremamente cheirosa. Com minha respiração profunda, buscando o alicerce do sono, sinto as molas da cama assoviarem a cada movimento da minha barriga. Morgana estava ronronando, o que sempre me desperta para um som tranquilizante e meditativo. Percebo meus olhos, minhas mãos, e sinto a vida surgindo dentro de mim como um sentimento. Não tem uma voz, não tem um escutar — é apenas um sentir. Volto a perceber a posição da minha cabeça no travesseiro, com meu novo corte de cabelo. O bebedouro da gata fazia um barulho de água caindo. Apareceu um vizinho ouvindo música em seu velho radinho. Se me atentar à escuta ativa, consigo ouvir os carros na estrada. Consigo até chutar a sua velocidade. A cidade anoitece e vive, de certa forma. E o silêncio me encontra. Há quanto tempo fico sem me manter em silêncio? Desde quando as vozes da minha cabeça deci...

Olhos para ver

Imagem
O motivo da minha parada foi o medo de pular. O motivo foi o apego as consequências.  Saindo de todas as leis, me vi covarde por não ir. Porém, incapaz de perceber o quanto sou pequena diante da vida e do que realmente fica. O poder de não entender e a falta de responsabilidade do dever. O que me vi ali? Cheia de questionamentos e sem motivos, pois eles eram rasos e ilusórios. Eles não me preenchiam porque não eram reais. E encarar essa dor da sua incapacidade de ver a verdade me doeu a alma. Me doeu o espírito por não compreender a verdade. Aquela que minha mente fugiu a vida, fugiu em sonho. De que aqui me fiz sob desejos e sentires que não eram eternos. E que nisso, me perdi ao torno de não saber o que seria atemporal. O que deveria buscar, não era mais o que eu sentia ou desejava. Era além.  Por que me iludi? Por que nos iludimos? Podemos aqui enfrentar a azeda contradição de que lutamos por coisas que nem nós mesmos sabemos. E ficamos a mercê do desejo alheio po...

Demais

Imagem
Sim, eu sou demais. Falo demais, articulo demais, grito demais. Sim, eu sou demais. Chata demais, insuportável demais, exigente demais. Sim, eu sou demais. Demais hoje, porque já aceitei pouco. Já diminui, já me culpei, já me cortei, já me instiguei, já me odiei demais. Hoje eu me cobro demais sim, porque já vivi sem querer nada, sem entender nada. Sim, eu sou demais. Exagerada demais, dramática demais, sentimental demais. Vivo meus sentimentos, vivo o demais. Sou 8 ou 80. Frase manjada, frase clichê. Quero tudo e quero nada. Quero o máximo do que conseguir, porque sim, eu sou demais. Ou é tudo ou é nada. Ou é agora ou é nunca. Entendo o tempo, mas sim, eu corro demais.  A gente vive demais e aprende que ser forte é uma coisa grudada na sua alma. Sempre fui forte demais. Sempre soube o que queria e só atrai aquilo que me permiti. Hoje tirei a capa de mulher boazinha de pouco, e me tornei a malvada demais. Porque é assim! Eu sou demais pra muitas coisas e tenho orgulho do ser demai...

Olhando o mar

Imagem
Ô mar que trouxe o amor para mim Há de vê-lo longe por mais tempo O dia se pôs e eu perdi o jeito Como um menino de frente pro medo Mas empolgado com o receio Ô mar que trouxe o calor pra mim Eis me fechada, parada no cais Esperando a onda encher meus ases Eis a terra firme para me subjugar incapaz Ó mar por que fazes assim? Tão singela e tão simples Me faz erguer sobre mim E eu me perder em ti Ó mar o meu desejo que o vento ouviu Trouxe de volta a promessa pra Senhor do Bonfim Recolocou no eixo o navio a afundar Mas nos mares distantes só o prazer encontrar Ô mar me fez sentir o fogo Das lenhas antes umedecidas, molhadas pelas águas dos céus E o vento secou e aflorou o ar deste calor Vindo de mim e de você Num infinito presente do estar no agora Apenas saboreando Essa deliciosa poesia de ser Ô mar... Tira esse amor de mim Não é ele quem me deu Não devo mais sentir o seu cheiro Pois o começo já teve um fim Ô mar, será que posso amar? Me diga se mere...

O despertar

Imagem
"O pavor no ar desencadeou Pois o aviso foi tarde Hoje o orixá me pressagiou Vai haver tempestade Muitas outras guerras eclodirão A minha volta mil cairão Isto que você testemunhará A televisão não transmitirá" Foi na leve brisa de outono com o vento suave batendo no meu rosto. Bem sútil, nada grave. O chuvisco estava breve, não chegou a molhar as roupas. Foi ali... bem ali. Que a vi chorar. Que a vi observar a alma mais brilhante dentro dos seus olhos. Vi que a natureza era certa até nos piores momentos e que a escolha só podia ser de ninguém, a não ser minha. A vi, brilhando... Na imagem de onde seria o seu coração, vi uma luz. Brilhante e poderosa, mas ainda se conseguia olhar. Ouvi ali, que a moça pedia calma. Pedia para mim esforço e muita, mas muita fé. Pedia que eu buscasse ajudar mais as pessoas que amo, as pessoas que já me ajudaram e aqueles também que um dia me quiseram mal.  Não pude negar, que nos seus olhos havia algo familiar. Alg...