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A combustão do não-ser

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  Tenho estado em ebulição, uma urgência latejante com a vida. Sem rimas, sem lirismo. A parte que me coube foi suportar o insuportável, porque talvez a anestesia da calma seja um tédio ainda maior. E se algo me fosse cobrado, pagaria noutra existência—devedora de normas, refém de condutas. Cansei de ser escolhida pelos olhos alheios, de ser medida, validada, selada como pertencente. Mas a que preço? Um eco eterno dentro de mim. Olhei para a lua rubra e ela fervia como meu sangue. Então ardi, incendiei-me como o próprio sol. Dissociei. Rasguei os protocolos da conduta. Não quero mais caber. Não quero mais moldar, superar, ajustar-me ao encaixe ilusório de uma melhora perpétua. Abandonei os dogmas modernos da existência e encontrei apenas cacos—tão distantes da projeção que fazem de mim. Despedaçada, incômoda, intragável. Uma dissidência ambulante, mal-amada por princípio. Talvez o amor seja só uma miragem, e aceito esse incêndio interno porque prefiro a combustão à enfermidade. A d...

A Castradora de Deus

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Eu não tinha vontade alguma de me formar em catequese. Sempre achei as dinâmicas das aulas chatas, irritantes, e que não me ensinavam nada além do que eu já sabia indo à missa. Tinha 11 anos de idade, e a minha preocupação era, aos sábados, assistir a Dawson's Creek e aliviar o peso do dia a dia, que era uma puta chatice. Mas, para a minha família, não. Para eles, eu deveria ter uma religião, deveria me comportar e perder o ar de moça rebelde que eu sempre tive. Eu precisava ouvir a palavra do Senhor, muito bem-quista, bem comportada e calada, como sempre, porque eram nas minhas palavras não ditas que se escondia a verdade daquele ambiente tóxico em que eu vivia. A catequese era uma forma de domar meus instintos, de me controlar. De esconder a realidade e iludir as pessoas de que éramos uma família que acreditava em Deus, e por isso éramos abençoados. Enquanto meu pai estava desempregado há anos, minha mãe fazia boa parte de todo o trabalho sujo. Inclusive comigo! Ela sempre me re...

O homem comum

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Malograda na vida e nas minhas próprias escolhas como tal. Incapaz de ver além do que eu mesma me tornei e me fiz até então. Que caos poderia ser evitado se não estivesse cheia de culpas e incapaz de ver a realidade como ela é. Tão frágil a ponto de não saturar a si mesma e a velha conduta do realizar. Fazendo as coisas por determinada condução... nunca pelo fato da coragem de apenas falhar e não pertencer. Vivendo em constante busca por algo que nunca encontrei em mim mesma. Destruída com as minhas próprias ambições infantis e ingênuas da vida, acreditando fielmente que ali estariam as minhas ânsias e vontades de levantar e sobreviver. Diante de uma força tão destruidora que me faz ver o quanto sou mesquinha, o quanto sou egoísta e o quanto não consigo rever esta ideia sobre mim. E que com os anos passando, me vejo não tão boa filha, não tão boa pessoa e muito menos não tão bom ser humano. E por que deveria me chocar? O viés do meu auto engano chegou até mim de forma a trucidar cada s...