O INVISÍVEL VISTO
Sempre fui atravessada por sonhos lúcidos demais para serem apenas delírios noturnos. Eram visões densas, carregadas, que tocavam minha pele etérea e reverberavam por cada célula do meu existir. Eu os sentia com a carne e com o espírito. As vozes... traziam timbres ancestrais, vibravam como cordas de um outro tempo, e diziam verdades que a mente acordada não ousava traduzir. Ali, naquele sobrado esquecido de escuridões e memórias, eu reconhecia o cenário de minhas outras fugas noturnas. Dona Rosa não podia me abandonar — ela, minha guardiã de outrora, meu farol nos becos da inconsciência. Mas ele... ele me esperava. Ele queria me ver definhar. Machucar. Queria calar esse meu brilho que acendia sua sombra. Meu dom de sentir revelava-lhe tormentos. E talvez... também sonhos. Foi ali que o despertar se deu: paralisada entre mundos, acordada por dentro e presa por fora. Eu sabia... não era pesadelo — era travessia. E do outro lado, aquele ser me via sem máscaras, sem nome, sem carne. Via m...