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Vida no sono

Sinto o cheiro da minha gata. Inacreditavelmente, ela nunca tomou um banho — a não ser ao se lamber durante um longo tempo — e, mesmo assim, é extremamente cheirosa. Com minha respiração profunda, buscando o alicerce do sono, sinto as molas da cama assoviarem a cada movimento da minha barriga. Morgana estava ronronando, o que sempre me desperta para um som tranquilizante e meditativo. Percebo meus olhos, minhas mãos, e sinto a vida surgindo dentro de mim como um sentimento. Não tem uma voz, não tem um escutar — é apenas um sentir. Volto a perceber a posição da minha cabeça no travesseiro, com meu novo corte de cabelo. O bebedouro da gata fazia um barulho de água caindo. Apareceu um vizinho ouvindo música em seu velho radinho. Se me atentar à escuta ativa, consigo ouvir os carros na estrada. Consigo até chutar a sua velocidade. A cidade anoitece e vive, de certa forma. E o silêncio me encontra. Há quanto tempo fico sem me manter em silêncio? Desde quando as vozes da minha cabeça deci...

Carta de Despedida

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Quem sou eu, senão mais um número? Apenas mais uma cláusula de um contrato? Quem sou eu na fila do pão? A descartável que se viu diante do muro — de um lado, os opressores; do outro, os oprimidos chorando por dignidade básica, tentando sobreviver além do óbvio. Penso na música dos Racionais: “ O cheiro é de pólvora, eu prefiro rosas E eu que, e eu que sempre quis com um lugar Gramado e limpo, assim, verde como o mar Cercas brancas, uma seringueira com balança Disbicando pipa, cercado de criança ” Mas até isso parece distante, quase um sacrifício inalcançável para o cidadão comum. Mais uma vez enxergamos as correntes em nossos pés — vendemos a alma ao Diabo, vestido de Gucci e Prada. Com colares banhados em sangue indígena e sorrisos cobertos por brilhos impostos pela estética. Será que me vi diferente disso tudo? Num mundo onde o valor do ser humano virou mera casualidade? Onde as premissas religiosas cegam até os mais bem-intencionados? Ficamos parados olhando o céu, suplicand...

A rotina de um ansioso

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Tem dias que você acorda bem. Fica bem até chegar no trabalho, pois consegue tirar mais uma soneca no busão. Assim que chega, nem liga o computador e corre para pegar um café. No primeiro gole, queima a língua. Isso é o suficiente para acabar com seu "bom humor" matinal. Passa. Sobrevive. Liga o computador. Depois de 10 minutos, seu chefe lhe pede 500 coisas para fazer. Você inspira, procura organizar as coisas na cabeça, entra no Facebook, vê as notícias nos sites. Fica triste pela situação do mundo. Se desespera por não querer mais viver neste planeta. Procura uma música e acaba sempre nas mesmas por sugestão do Youtube. Passa. Vê os sites de entretenimento. Volta. Planeja, apesar da instabilidade dentro de você, tirar as coisas da cabeça e começar a trabalhar. Busca fontes, vê exemplos, se inspira. Têm ideias. Depois ouve comentários sobre notícias ruins, fica intolerante as diferenças. Volta. Se aborrece por estar ali. Queria estar numa praia. Sai para fumar. Fuma dois...