Carta de Despedida
Quem sou eu, senão mais um número? Apenas mais uma cláusula de um contrato? Quem sou eu na fila do pão? A descartável que se viu diante do muro — de um lado, os opressores; do outro, os oprimidos chorando por dignidade básica, tentando sobreviver além do óbvio. Penso na música dos Racionais: “ O cheiro é de pólvora, eu prefiro rosas E eu que, e eu que sempre quis com um lugar Gramado e limpo, assim, verde como o mar Cercas brancas, uma seringueira com balança Disbicando pipa, cercado de criança ” Mas até isso parece distante, quase um sacrifício inalcançável para o cidadão comum. Mais uma vez enxergamos as correntes em nossos pés — vendemos a alma ao Diabo, vestido de Gucci e Prada. Com colares banhados em sangue indígena e sorrisos cobertos por brilhos impostos pela estética. Será que me vi diferente disso tudo? Num mundo onde o valor do ser humano virou mera casualidade? Onde as premissas religiosas cegam até os mais bem-intencionados? Ficamos parados olhando o céu, suplicand...