Sou numa noite, espectro.
Não sou do seu clã. Não caibo aqui. Nem ali. Sou um espectro entre mundos, um esboço desalinhado no traço fino da conveniência. Não vim para caber no seu suposto querer. Sou do toma lá, dá cá—mas minhas moedas são farpas e meus trocos, facas cegas. Não mereço seu tempo, seu olhar... Muito menos sua disposição. Meu reflexo nem sequer vale o espelho em que se deforma. Nunca vali. A fuga sempre me seguiu como sombra leal, sussurrando promessas de esquecimento. Se não corro, afundo. Se fico, me afogo. Melhor ir, antes que me entupa de ilusões baratas vestidas de amor, esses trajes de segunda mão que sempre caem mal no corpo da verdade. Nasci com uma navalha entre os dedos, aparando excessos, cortando sentimentos envenenados. Separando a carne podre da fantasia romântica. Mas quem sou eu? O que são minhas palavras, senão ecos surdos de um pedido de socorro que ninguém ouve? Buscando o salvador da minha pátria. Buscando o salvador da minha libido, soterrada sob camadas de ódio e medo. D...