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Capítulo 55: Renascimento no Caos

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No que me transformei? O que escolhi? Escolhi não ver, escolhi me esconder. Me esconder de mim mesma, fingir saber, fingir que não tinha condições suficientes. Me importar além do que deveria com coisas que não mereciam tanta atenção e ver a realidade dolorosa de uma criança gritando em pânico, de uma adolescente apavorada com o futuro, e de uma adulta cheia de certezas e soberba. Segurando tudo sozinha, porque algumas dores simplesmente não têm explicação. E, mesmo que eu, como escritora, pudesse sintetizar os movimentos da consciência, falar sobre os sentimentos sempre foi algo mais complexo. O grande Saturno retornou à minha vida agora. Sem dó, sem piedade. E me trouxe as consequências de todas as minhas ações: a falta de responsabilidade, de compromisso comigo mesma, a falta de sabedoria para lidar com a dor. Convivi tanto com ela que se tornou minha amiga, minha parceira. Encontrei um jeito fascinante de justificá-la, de torná-la a dominadora das minhas atitudes e ações. Dei a ela...

Capítulo 1: Quando as estrelas apagaram

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Naquele dia, as estrelas pareciam ter se apagado antes do entardecer. Fomos para a festa na empresa do meu pai, um evento que deveria ser uma celebração, mas para mim, parecia o prelúdio de uma tempestade que eu já pressentia. Desde que me entendia por gente, sempre fui sensível às dores ao meu redor, e naquele momento, a dor de minha mãe era palpável, como uma sombra densa, pairando sobre nós. Meu pai, imerso no álcool e no ciúme, tentava preencher seu vazio flertando com outras mulheres à vista dela, enquanto eu fingia não ver. Mas, por dentro, algo em mim já sabia — aquilo era apenas o começo. Eu, com meu semblante abatido, sentia que algo estava para acontecer. A antecipação do desastre me envolvia, como um presságio silencioso, sem forma, mas inevitável. E então, quando a noite avançou, os sussurros das brigas ecoaram pelos corredores da casa. No banheiro, meu pai e minha mãe se enfrentaram como dois titãs arrastados por uma força destrutiva. Medo. O medo que senti naquela madruga...

A rara arte de escutar: em meio ao ruído, quem ainda ouve?

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Ouvir, entender, escutar. Em que dinâmica estamos mergulhados, onde o tempo parece sempre escapar entre os dedos, escasso demais para ouvir o outro? Vivemos numa superficialidade que nos empurra para a pressa, com diálogos rasos e pouca disposição para escutar verdadeiramente. A realidade moderna nos impõe um ritmo frenético, onde a profundidade se perdeu e as pessoas seguem cada vez mais distantes, sem sequer tentar compreender umas às outras. É natural não querer encarar certas verdades, assim como é comum evitar o esforço de oferecer a escuta ao outro. O tempo é dinheiro, a vida corre, e, nesse fluxo veloz, deixamos passar a chance de nos entregarmos a trocas sinceras e genuínas. Percebo que o ato de ouvir perdeu a prioridade, talvez porque nem a nós mesmos conseguimos ouvir. Abandonamos a essência de uma escuta ativa e honesta. Perdemos o filtro, adicionando critérios que nos afastam do que não nos serve mais. Praticamos zero tolerância ao que consideramos irreal. Falamos para reaf...

Capítulo 23: A descida ao paraíso distorcido com fritas

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A noite era mais escura do que o normal, ou talvez fosse eu que estava começando a enxergar a vida assim — uma mistura de sombras e silêncios que se entrelaçavam, sem deixar muito espaço para a luz. Estava exausta, cansada de tudo. O trabalho, a família, os relacionamentos que se esfarelavam, como com o  Judas (porque não havia nome mais apropriado para aquele traidor). Meus olhos se fixaram no copo à minha frente, um convite para o abismo, e eu aceitei. Enchi meu corpo com tudo o que pudesse entorpecer os pensamentos: papel, majis, álcool, cigarro. Era como se eu quisesse apagar não só a dor, mas qualquer vestígio de mim mesma. O reggae soava distante, como se estivesse tocando para outra pessoa, em outro lugar. Eu comi muito pouco naquele dia, o que fez com que a mistura ficasse ainda mais potente, mais rápida. Meu corpo começou a ceder, e antes que eu pudesse perceber, fui ao banheiro do bar, tropeçando nas sombras que se formavam em minha mente. Agarrei a privada como se fosse...

Carta aberta

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Querida Thaiane, Escrevo para você de um futuro onde as cicatrizes estão mais visíveis, mas o coração, mais leve. Escrevo para você que se perdeu em tantas dúvidas, que se olhava no espelho tentando entender o que em você não era suficiente. Foi por tantas palavras jogadas ao vento, por olhares que não te enxergavam, e pelo peso de um estigma cruel que você foi convencida a carregar. Quantas vezes questionei minha autenticidade, minha liberdade de ser quem sou? Me diziam para ser algo menor, algo que coubesse nos limites dos outros. Me chamaram de tantos nomes, me rotularam como desajustada, como uma mulher perdida por simplesmente existir. E eu, naquela época, aceitei. Aceitei porque, como tantas outras mulheres, fomos convencidas de que nosso valor depende de sermos validadas externamente. Ele entrou na sua vida como uma tempestade silenciosa, não te respeitou, não enxergou sua profundidade. Para ele, você era apenas uma pausa entre suas próprias inseguranças, um eco de seus desejos ...

A Torre e o Trovão

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Gerei meu ultimato com a ressaca moral. Ela passou mais uma vez, olhando minhas condutas e se perguntando sobre construções. Do abismo entre o que se achava correto, para o que meus impulsos me levaram a agir. Apenas um ser humano diante da dinâmica voraz de sua própria natureza. Por que deveria me submeter aos encantos do caos, se saísse disso cada vez mais angustiada? A resposta nunca foi satisfatória para o meu ego, mas alimentava minha alma humilde, que retratava ao meu subconsciente seus porquês e finalidades. Minhas crenças obsoletas tinham que morrer. Ser enterradas abaixo da terra. Eram elas que me seguravam, que me davam uma falsa sensação de controle e poder. Ao mesmo tempo que me deixavam segura em certezas banais, me traziam um sufocamento eterno de espírito. Aquilo me enforcava. Me trazia de novo a dor e o sofrimento. O sofrimento que tanto quis largar, e andei com ele para esconder minha frustração. Minha sina de falsa culpa e de ilusões precárias da mente com o objetivo ...

Olhos para ver

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O motivo da minha parada foi o medo de pular. O motivo foi o apego as consequências.  Saindo de todas as leis, me vi covarde por não ir. Porém, incapaz de perceber o quanto sou pequena diante da vida e do que realmente fica. O poder de não entender e a falta de responsabilidade do dever. O que me vi ali? Cheia de questionamentos e sem motivos, pois eles eram rasos e ilusórios. Eles não me preenchiam porque não eram reais. E encarar essa dor da sua incapacidade de ver a verdade me doeu a alma. Me doeu o espírito por não compreender a verdade. Aquela que minha mente fugiu a vida, fugiu em sonho. De que aqui me fiz sob desejos e sentires que não eram eternos. E que nisso, me perdi ao torno de não saber o que seria atemporal. O que deveria buscar, não era mais o que eu sentia ou desejava. Era além.  Por que me iludi? Por que nos iludimos? Podemos aqui enfrentar a azeda contradição de que lutamos por coisas que nem nós mesmos sabemos. E ficamos a mercê do desejo alheio po...